Conheça uma experiência de cuidado em saúde mental no Ceará que se tornou referência internacional!

Dona Zilar Amaro Ferreira costuma dizer que sentia “uma dor na alma”. Vivendo em um completo estado de desânimo, também diz que foi um abraço que lhe tirou “do fundo da rede”, do “fundo do poço”. Em um depoimento contado em vídeo, ela refaz passo a passo o caminho que a levou da depressão severa até a redescoberta de uma vida saudável. Não conseguia levantar nem mesmo para tomar banho — hoje, pratica exercícios diários. Não sabia ler — hoje, sonha com a faculdade de fisioterapia depois de ter concluído o ensino médio. Não se relacionava com mais ninguém — hoje, faz massoterapia, reiki, cuida da horta. Acolhida pelo Movimento Saúde Mental (MSM), sua história é — entre tantas — uma das que mais emocionam Rino Bonvini, médico psiquiatra e padre idealizador do projeto que vem transformando vidas na capital do Ceará.

Estruturado em uma abordagem sistêmica comunitária, o Movimento Saúde Mental constrói estratégias de cuidado pensando o ser humano em sua totalidade “biopsicossocioespiritual”, explica o padre Rino, em entrevista à Radis. “Ou seja, todas as dimensões do ser humano são integradas nesse processo”. Em quase 35 anos de existência, o projeto já ofereceu escuta, acolhida e terapias diversas a pelo menos 5.172 pessoas em um território de grande vulnerabilidade na periferia de Fortaleza. Que se diga: o MSM não se resume a atendimentos psicológicos individuais e em grupo, apesar de disponibilizá-los. “Oferece também escola de gastronomia, ateliê de arte, oficinas de moda e robótica, cultivo em hortas comunitárias, uma série de possibilidades”, explica o missionário comboniano, que veio da Itália e se estabeleceu no Ceará inspirado, por um lado, nas ideias da Teologia da Libertação, e por outro, na psiquiatria libertária de Franco Basaglia.

Se o embrião do MSM contou apenas com voluntários, agora, pelo menos 230 pessoas já foram formadas seguindo uma metodologia multidisciplinar. Bem-sucedida, a experiência foi considerada uma “tecnologia social” por parte da Fundação Banco do Brasil, em 2009, e chancelada com o selo de “inovação em saúde mental” pela Mental Health International Network, em 2018. Mas veio a pandemia de covid-19, uma tragédia sanitária mundial que atingiu em cheio o país. Como fazer para manter um serviço que acontece majoritariamente de forma presencial, reunindo pessoas diariamente em uma sede física, em torno de atividades terapêuticas as mais variadas? “Foi preciso reinventar o Movimento”, responde o padre Rino, “adequar-se ao novo contexto”. Afinal, a abordagem sistêmica e comunitária também ensina que é preciso desenvolver capacidades para se regenerar e restabelecer o equilíbrio de acordo com o momento.

Era preciso reorganizar criativamente os cuidados para o modo online. Assim surgiu o “Saúde Mental Dentro de Casa”, um dos projetos selecionados na Chamada Pública para apoio a ações emergenciais junto a populações vulneráveis — edital lançado pela Fiocruz em março. Agora, por meio de uma plataforma virtual, todos os atendidos pelo projeto podem tanto acessar os plantões psicológicos individuais quanto participar de sessões nos grupos terapêuticos; praticar meditação guiada ou ouvir podcasts sobre Práticas Integrativas de Cuidados (PICs). Às quartas-feiras, tem a live “Saúde de em prosa”, sempre uma boa conversa com convidados especiais. Às quintas, é a vez da “Cineterapia” — dia 24 de setembro, foi exibido o aclamado filme brasileiro “Bacurau”, seguido de um debate online com a psicóloga Francimeire França e o ator Jorge César Moreira Rodrigues. Padre Rino acredita que essas são janelas importantes que ajudam durante o período de isolamento social e se colocam como uma oportunidade para cuidar do sofrimento psíquico e existencial e prevenir o desenvolvimento do transtorno do estresse pós-traumático.

Aqui e agora

O Bom Jardim é um bairro de Fortaleza com uma realidade similar à de muitas comunidades na periferia das grandes cidades brasileiras. No início dos anos 1960, caracterizava-se pela migração consistente de famílias do campo para a cidade; hoje, pesa sobre a região o estigma da violência e da guerra entre facções do tráfico de drogas. Com 37.758 habitantes, tem 30% da população vivendo abaixo da linha da pobreza e 60% ganhando até um salário mínimo, faz questão de descrever padre Rino. Fica numa região também conhecida como Grande Bom Jardim e engloba cerca de outras 20 comunidades. É nesse lugar, considerado por muitos como “o fim do mundo”, que nasce e prolifera essa experiência de terapia comunitária que, por meio dos chamados grupos de autoestima, funciona como espaço de conscientização e evolução pessoal, dentro de uma perspectiva cidadã.

Para o médico psiquiatra e missionário, é preciso seguir pensando saúde mental fora de uma perspectiva meramente biológica. “É uma questão de epistemologia”, ele diz. “Se eu vejo o ser humano como uma máquina ou apenas como uma soma de neurotransmissores de reações químicas fisiológicas, a abordagem será inevitavelmente técnica e com uso de medicação”. Mas as pessoas são muito mais complexas, ele acrescenta. Por isso a aposta numa abordagem biopsicosocioespiritual. Ele critica o modelo hospitalocêntrico por considerá-lo reducionista. “Se uma pessoa fica só no diazepan”, exemplifica, “não vai entender qual a causa da sua ansiedade, vai ter sempre um problema que precisa de um remédio, e, nesse caso, se ‘psiquiatriza’ a saúde mental”.

Ao final da entrevista, o próprio padre Rino se faz uma pergunta para a qual muitos não teriam uma resposta: “Por que me sinto feliz com o que eu faço?”

Mas ele responde:

– Porque vale a pena. Você vê que a vida das pessoas muda. Não se trata apenas de oferecer uma esperança vazia de uma bênção ou a proposta de paraíso no futuro. Não. É uma transformação de vida que acontece aqui e agora.