(Livro reúne os resultados de anos de pesquisa e vivências do médico psiquiatra e presidente do Movimento Saúde Mental, padre Rino Bonvini / Foto: Yago Medina)

 

Na quinta-feira, 29/02/2024, o auditório do bloco H da Universidade de Fortaleza (Unifor) recebeu o evento de lançamento do livro Abordagem Sistêmica Comunitária – Uma Socioterapia de Múltiplo Impacto, assinada pelo presidente do Movimento Saúde Mental (MSM), padre Rino Bonvini.  Além do autor, o evento contou com uma mesa de palestra composta pelo antropólogo e brasilianista norte-americano e professor Emérito da Universidade de Wisconsin, Milwaukee – EUA, Prof. Dr. Sidney Greenfield, além da participação das lideranças indígenas Neto Pitaguary, Natália Tatanka, Rute Anacé e Nádia Pitaguary. 

 

A abertura e condução da mesa foi realizada pelas Profª Drª Aline Brilhante e Profª Drª Christina Praça. Os convidados aprofundaram as discussões sobre a ASC e sobre as tradições de cura dos povos  Lakota Sioux (EUA), Pitaguary e Anacé (Brasil) durante o evento. O lançamento contou ainda com um coffee break oferecido pelo Giardino Buffet, negócio social do MSM, que tem como objetivo promover a geração de renda para os moradores da comunidade.

 

Durante a palestra, o antropólogo e brasilianista norte-americano Prof. Dr. Sidney Greenfield relembrou das vivências com o povo Lakota Sioux (EUA) e a importância do sincretismo cultural junto ao povo Pitaguary (Brasil) para o desenvolvimento da tecnologia socioterapêutica que, mais tarde, seria denominada Abordagem Sistêmica Comunitária. “Ele começou a conhecer, estudar e entender a visão de mundo dos Lakota. E a coisa importante a entender aqui é que, na visão dos Lakota, tudo está ligado. As coisas da vida não estão separadas”, destaca. A conexão do padre Rino Bonvini com a cultura indígena também foi resgatada durante a fala da educadora Nádia Pitaguary, que agradeceu pelo trabalho de fortalecimento e cuidado dos povos originários do Ceará. 

 

Neto Pitaguary, técnico em enfermagem que atua com a saúde indígena, também dedicou o momento a relembrar sua trajetória junto ao Movimento Saúde Mental. No ensino médio e durante o curso técnico, Neto Pitaguary foi bolsista do projeto “Juventude Indígena Realizando Sonhos”, desenvolvido pelo MSM. As ações realizadas no projeto contribuíram para a formação escolar e profissional de jovens indígenas. “A nossa sociedade só nos respeita se a gente tiver um diploma, então, nós temos. Para que a gente consiga decolonizar também esses espaços”, explica. 

 

A antropóloga e doutoranda em Ciências Sociais (Universidad de Salamanca – ES), Rute Anacé, também dividiu com a plateia suas experiências com o Movimento Saúde Mental, reforçando a importância das ações para a comunidade indígena, em especial na área da educação. “Os indígenas que conseguem ingressar na universidade aqui no estado do Ceará, há pouco tempo atrás, era pelo Sisu, pelo ENEM. E, muitas vezes, isso dificulta, porque as corridas são diferentes para quem vem de uma base mais simples e para as pessoas que têm condições de investir na educação de seus filhos. Ou seja, é também repensar como está sendo estruturado este ensino superior para os indígenas do estado do Ceará”, reflete.

 

Natália Tatanka, psicóloga e presidente da Comissão de Psicologia de Povos Indígenas e Povos Tradicionais do Conselho Regional de Psicologia do Ceará (CRP-CE), destacou a importância dos rituais dos povos Lakota e Pitaguary para o fortalecimento da saúde mental e para o desenvolvimento das ações e atividades realizadas no MSM. Ela ainda comenta sobre o pioneirismo dentro do CRP-CE. “Pela primeira vez na história do Conselho [CRP-CE]  se fala em psicologia de povos indígenas e povos tradicionais. Parece que isso era inexistente, sendo que a psicologia se inspira muito nas tradições de cura dos povos tradicionais”, afirma.

 

Organizada sob três princípios – Autopoiese Comunitária, Trofolaxe Humana e Sintropia -, a Abordagem Sistêmica Comunitária foi reconhecida, em 2009, como tecnologia socioterapêutica efetiva e replicável pela Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social. Já em 2018, a ASC foi considerada uma inovação em Saúde Mental pelo MHIN (Mental Health Innovation Network) – vinculado à Organização Mundial da Saúde.

 

Em 2008, a ASC foi indicada pela Organização Pan-Americana da Saúde, em Washington – EUA, como um dos modelos de referência em saúde mental comunitária para a América Latina. Em dezembro do mesmo ano, a ASC foi considerada experiência bem sucedida no Fórum Mundial da Saúde Mental Comunitária em Cuba. No ano de 2012, a Revista Ciência e Saúde Coletiva publica artigo científico: Inovação em saúde mental sob a ótica de usuários de um movimento comunitário no nordeste do Brasil. 

 

Já em 2019, a ASC foi apresentada no 19º WPA – Congresso Mundial de Psiquiatria -, em Lisboa, Portugal: “Abordagem Sistêmica Comunitária: uma metodologia multidisciplinar para fortalecer as comunidades, abordando as dimensões biopsicossocioespirituais dos indivíduos”. Esses são alguns dos reconhecimentos da eficácia da ASC como ferramenta terapêutica.

 

por Gabriele Félix e Elizeu Sousa