Era noite de quarta-feira e o auditório da Casa AME e a área da cantina do CAPS Comunitário do Bom Jardim abrigavam um grupo animado e diverso de pessoas dando os primeiros passos na matemática. Em paralelo aos aprendizados, há nesses encontros outra marca especial, a da superação.
De agosto a dezembro deste ano, os espaços do Movimento Saúde Mental (MSM) e do CAPS ganham novos sentidos. Para além das vivências terapêuticas, de arte e gastronomia que já são nossa marca registrada, abrigam agora 4 turmas da Jornada de Alfabetização de Jovens e Adultos nas Periferias de Fortaleza.
Entre os participantes estão Bruno Ferreira e sua mãe Selma Ferreira, que o acompanha no dia a dia desde que ele teve, aos 14 anos, as primeiras manifestações mais fortes do autismo e do TDHA. Além de acompanhante, desta vez Selma também é aluna e quer melhorar a reduzida capacidade de leitura. Assim como Carlos André Sousa, torcedor do Fortaleza e usuário do CAPS que já declarou não querer que o projeto termine em dezembro.
Tem ainda a turma das Marias. Dona Maria Isidan Morais, uma das melhores cozinheiras desse Grande Bom Jardim, ex-aluna da nossa Escola de Gastronomia Autossustentável, que pelas dificuldades da vida não conseguiu se alfabetizar plenamente e aproveita a oportunidade com o marido. Dona Maria de Lourdes Oliveira que faz acompanhamento no CAPS e aproveita as noites de alfabetização para partilhar com a turma suas histórias de amor animadas. E dona Maria do Carmo Teixeira, que também acompanha a filha no CAPS, e quer aprimorar a leitura para ficar mais independente no uso do celular e demais desafios diários.
Cada participante carrega consigo uma história de vida incrível e dá cor, história e sentido a uma estatística cruel em pleno século XXI. Você sabia que o Censo de 2022 do IBGE destacou a cidade de Fortaleza como a primeira entre as três maiores capitais do Nordeste com a maior taxa de analfabetismo entre a população com mais de 15 anos? Aqui, mais de 110 mil pessoas não sabiam ler e escrever no período da pesquisa, representando 5,6% da população local. Hoje, estima-se que este número seja ainda maior.
É para enfrentar este desafio que no dia 18 de agosto teve início a Jornada de Alfabetização, realizada pelo Mãos Solidárias Ceará, projeto do Movimento de Trabalhadores/as Rurais Sem Terra (MST), em parceria com o Levante Popular da Juventude, o Movimento Brasil Popular, o Ministério da Educação (MEC), a Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) e dezenas de entidades e movimentos sociais espalhados pelas periferias da cidade, como o MSM. O projeto conta ainda com apoio da Secretaria de Educação e da Prefeitura de Fortaleza.
São 150 turmas espalhadas pelas comunidades de Fortaleza, que terão 5 meses de formação, com encontros noturnos de 2 horas, durante 4 dias por semana. O processo de ensino e aprendizagem é inspirado na pedagogia cubana de Leonela Inés Relys Díaz, o método “Sim, Eu Posso”, que já alfabetizou mais de 11 milhões de pessoas em mais de 30 países do mundo.
Além da jornada de alfabetização, o projeto @maos_solidarias_ce atua em outras frentes na capital cearense e em outros municípios do Estado, enfrentando o problema da fome através das cozinhas solidárias e distribuição de marmitas, estimulando a agricultura urbana a partir da construção de hortas, e processos de economia solidária, através do cooperativismo e da construção de associações.
Por Milene Madeiro