Uma nova tese acadêmica abordando o trabalho do Movimento Saúde Mental (MSM) acaba de ser aprovada na Università de Siena, na Itália. No dia 04 de fevereiro, o economista social Alessandro Toso defendeu a pesquisa “Determinantes não materiais do bem-estar: uma investigação centrada no ser humano nas Américas”, sob orientação do Prof. Stefano Bartolini. Em sua pesquisa para o doutorado em Economia, ele analisou três experiências em diferentes contextos (Brasil, Estados Unidos, América Latina e Caribe) para investigar como fatores sociais e ecológicos interagem com vulnerabilidades individuais e a estabilidade social.

O primeiro artigo da tese enfoca o trabalho do MSM. Intitulado “O poder terapêutico do capital social: um estudo quantitativo sobre felicidade e saúde mental na periferia do Brasil”, investiga o papel protetor e terapêutico do capital social na formação do bem-estar entre indivíduos com transtornos psiquiátricos, condições psicológicas leves e um grupo controle sem diagnósticos. No estudo, Toso observou que a colaboração entre o CAPS Geral V e o Movimento Saúde Mental oferece um inovador modelo de cuidado integrado. “Enquanto o CAPS presta serviços clínicos e psiquiátricos, o Movimento os complementa implementando as PICS (Práticas Integrativas e  Complementares em Saúde), que representam uma forma de intervenção psicossocial de base comunitária”.

Em 2023, o pesquisador passou três meses no Bom Jardim e aqui entrevistou mais de 500 pessoas acolhidas nas atividades do MSM, com o objetivo de avaliar quantitativamente o impacto social do Movimento na qualidade de vida das pessoas que se beneficiam dos serviços oferecidos e que apresentam várias condições de saúde mental. Segundo ele, os dados coletados permitiram analisar o “papel do capital social (conceitualizado como inclusão e participação social, redes e atividades no bairro) na promoção do bem-estar de pessoas com diferentes níveis de sofrimento psicológico e psiquiátrico”. 

A pesquisa o fez perceber que o Movimento Saúde Mental “representa uma exemplificação única e relevante de tecnologia social para o desenvolvimento humano das comunidades moradoras nas periferias urbanas. A combinação da abordagem clínica oferecida pelo CAPS Geral V e a socioterapia do Movimento (a Abordagem Sistêmica Comunitária) constitui uma forma inovadora de integração assistencial baseada nos pilares de capital social, bem-estar subjetivo e saúde mental”.

Entre os achados mais valiosos, ele ressalta que “a análise mostrou que o capital social é um componente fundamental da qualidade de vida das pessoas com sofrimento mental. A integração social dessas pessoas não é apenas um princípio moral, mas uma forma de valorização como cidadãos ativos de categorias sociais historicamente marginalizadas. No modelo estatístico, o impacto positivo do capital social no bem-estar cresce com o agravamento da saúde mental: pessoas com um nível elevado de sofrimento mental terão um benefício maior no aspecto psicossocial”. 

Por esta razão, sua pesquisa aponta que “a experiência pode tornar-se um modelo replicável para comunidades semelhantes em todo o Sul Global, onde os sistemas de saúde pública muitas vezes permanecem subfinanciados e fragmentados, tornando as respostas baseadas na comunidade essenciais”.

Toso destaca ainda que “esses resultados demonstram que as políticas públicas brasileiras de saúde mental devem promover cada vez mais o capital social, por meio da combinação de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) com práticas clínicas, como no caso do CAPS Comunitário do Bom Jardim. As instituições públicas devem favorecer a implementação de abordagens comunitárias em áreas vulneráveis do Brasil, através do maior acesso a serviços descentralizados de saúde e do suporte às organizações civis. Essas implicações buscam se alinhar com a perspectiva de prevenção e cura das pessoas com sofrimento mental, em conformidade com os princípios de humanização promovidos pela Reforma Psiquiátrica Brasileira”.

Além da experiência do MSM, Toso dedicou-se a outros dois estudos empíricos. Um nos Estados Unidos, intitulado “A felicidade subjetiva pode proteger contra o uso de crack/cocaína e o uso de drogas injetáveis?”, que examina a relação causal entre a felicidade e formas graves de uso de substâncias. O último artigo, intitulado “A perda de cobertura florestal prejudica a confiança institucional? Uma análise comparativa entre países da América Latina e do Caribe (2008–2023)”, estuda o impacto da degradação florestal na confiança dos cidadãos nas instituições públicas. Os três estudos demonstram que o bem-estar subjetivo, o capital social e a estabilidade ambiental são fatores interdependentes que influenciam os resultados individuais e coletivos. Eles sugerem a necessidade de abordagens integradas em saúde pública, política social e governança ambiental para construir sociedades mais resilientes, inclusivas e confiáveis.

Na aba de Trabalhos Científicos do site você pode acessar tanto a tese completa quanto o artigo de Alessandro Toso sobre o trabalho do Movimento Saúde Mental. Para viabilizar  a pesquisa realizada no Bom Jardim (em 2023), ele foi aprovado para um doutorado sanduíche na Universidade Federal do Ceará, no curso de doutorado em Saúde Pública.