Dona Balbino, moradora da comunidade e apoiadora do Movimento desde as origens, participou e foi homenageada. / Foto: Francisco Arrais
Desde sua fundação, o Movimento Saúde Mental (MSM) vem construindo uma história de atuação em favor do bem-estar das populações mais vulneráveis. Se no início o trabalho se concentrou na região do Grande Bom Jardim, hoje a atuação expandiu-se para além das fronteiras do Brasil.
Lá em 1996, quando o padre Rino Bonvini chegou ao Bom Jardim, para cumprir sua missão comboniana, certamente não imaginava que 30 anos depois celebraria a união de tantas pessoas por uma mesma missão: “Acolher todos os seres e promover a saúde mental, a evolução pessoal e comunitária, respeitando as dimensões biopsicossocioespirituais para a promoção da vida”.
Foi a percepção da necessidade de “Acolher, Escutar e Cuidar” das pessoas que o reuniu com lideranças das Comunidades Eclesiais de Base, para fundarem o Movimento Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim, hoje Movimento Saúde Mental. Uma história de 3 décadas, não se faz com pouca gente e há outro fato relevante: milhares de vidas já foram impactadas pelas ações da instituição.
Para celebrar este marco, no dia 25 de abril, a Palhoça Comunitária foi palco para o encontro de dezenas de pessoas queridas. Estavam lá lideranças da comunidade que fundaram o MSM juntamente com o padre Rino, desde dona Maria Balbino, aos 96 anos, até os mais novos colaboradores/as e parceiros/as. Foi momento de homenagear a todos/as pelas contribuições. Mas foi, antes de tudo, hora de matar a saudade, de reencontrar pessoas queridas que seguem assumindo o compromisso com a Vida.
O evento foi aberto com a acolhida, num corredor de cuidado, das pessoas que representam as raízes do Movimento, que se reuniram para ajudar a fundar a instituição. Fazendo a ponte entre quem fundou e as pessoas acolhidas naquele início, a jovem artista Brena Guerra emocionou ao partilhar os impactos do projeto Sim à Vida em sua história. “Eu tenho praticamente a idade do Movimento, tenho 32 anos e cheguei aqui com 5 anos de idade. Quando eu cheguei aqui a minha mãe tinha falecido e quem me acolheram foram Ana Paula e Lindalva, eu lembro delas bem pequenininha, eu lembro do carinho que elas tinham por mim, que às vezes não tinha comida em casa e eu vinha comer aqui, elas eram muito solícitas comigo. Eu sou artista hoje, eu trabalho com minha arte, eu amo minha arte, porque aprendi aqui dentro, eu aprendi a cantar e a transformar toda estrutura de dor e sofrimento em arte, em algo bonito, porque essas pessoas olharam pra mim e me enxergaram como artista, elas me ensinaram a ser uma artista, me ensinaram que eu podia sair daqui do Bom Jardim e conhecer países, culturas e realizar projetos com a minha arte”.
Brena relembrou que foi no MSM que aprendeu a usar computador e que participou também do cursinho comunitário CABJ. Daqui ela seguiu: fez curso de Técnico em Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e faz formação em Teatro pelo Instituto Federal do Ceará, além de ser compositora e cantora. Sua carreira artística acumula premiações: o curta “Safira”, foi premiado no 2023 Student World Impact Film Festival, em Nova York; o videoclipe “Tudo que incomoda” no Festival Renuac, no Chile; a música “Tudo que incomoda” no 2025 Word Wave Music Festival, em Los Angeles. O mesmo videoclipe também foi finalista no Festival Internacional Universitário Noia 2025, que aconteceu em Fortaleza.
Em seguida, dezenas de pessoas que contribuíram com as ações do MSM nesse intervalo de tempo foram reconhecidas com menções honrosas, enquanto a história do Movimento ia sendo contada. A Palhoça Comunitária, o Centro de Aprendizagem do Bom Jardim (CABJ), a Horta Terapêutica, o projeto Sim à Vida, a Casa AME, o programa Jovem Aprendiz, a Escola de Gastronomia Autossustentável, o Giardino Buffet, a sede Ezequiel Ramin, o Campus Wopila, juntos, vêm transformando a vida de milhares de pessoas através da Abordagem Sistêmica Comunitária, socioterapia que enxerga o ser humano em suas dimensões biopsicossocioespiritual, contribuindo para superação da Síndrome da Colonialidade Internalizada e o florescimento pessoal e comunitário.
Na ocasião, também foram apresentadas duas exposições fotográficas, organizadas sob a curadoria da artista visual Joyce Monteiro, com apoio das equipes da Comunicação e da Casa AME. Uma apresentava fotos atuais do trabalho do MSM e a outra fotos históricas da década de 1990 e início dos anos 2000. Nelas, as principais ações e espaços da instituição foram retratadas sob a poética de um cotidiano feito de encontros construídos com a missão de humanizar a saúde mental, revolucionar as relações e ressignificar aquilo que é medo, prisão ou exclusão.
Em seguida, o Giardino Buffet serviu um delicioso lanche com pratos salgados, bolos, saladas e sucos, para animar as rodas de conversa que se formaram. Riso solto, abraços, comida boa e reencontros animados fecharam a manhã que inaugurou as comemorações do aniversário.
Texto por Milene Madeiro
Fotos por Rafaell Estebann