Sob a brisa de árvores de baixa copa, em um chão de areia, pedregulho e mato batido. O ambiente tem aspecto de casa de vó, onde predomina o aconchego. É ali que o cuidado se mostra presente, na atenção, na paciência e na escuta compassiva.
Olhares genuínos, sorrisos e abraços espontâneos. A verdade que existe em se sentir acolhido e amparado. O calor da capital cearense estava acima dos 30º C, mas esse ainda é mínimo comparado ao calor humano sentido na Residência Terapêutica (RT) do Grande Bom Jardim, lugar onde o viver melhor se encontra na resiliência, na oportunidade de ser quem se é.
É maio, pleno mês da Luta Antimanicomial, e em Fortaleza (CE) as terças-feiras são dias de arteterapia com os residentes da RT, aos cuidados de terapeutas do Movimento Saúde Mental (MSM) e do CAPS Comunitário do Bom Jardim. Entre cores e sensações, sentimentos e abstrações. A arte se manifesta livre e sensível, transformando a casa em um ateliê, onde expressar vira sinônimo de encontro consigo.
As tintas, em cores vivas e primárias, passeavam pelas telas com leveza, sem precisão. Apenas a certeza de querer manifestar o que tiver que ser. Esse seria o princípio da terapia escolhida, e foi perceptível, pela satisfação e dedicação de cada um ao seu projeto de expressão pessoal. Lindo de se ver, melhor ainda de se fazer.
Além dos residentes, cuidar de quem cuida também faz parte do processo terapêutico. São três os profissionais que se intercalam nas necessidades dos moradores, supervisionados por uma gestora. Com o auxílio do MSM e CAPS, o zelo com o cuidador é garantir, no mínimo, a gratidão pelo trabalho e função exercidos.
“Inspirando e exalando, liberando o que precisa sair”, foram as palavras do terapeuta ao trabalhar a auriculoterapia nos profissionais da casa. Com receio, um dos cuidadores não estava disposto a receber o tratamento. Mas foi pelas palavras de incentivo de sua colega que ele se entregou. “Vem, menino! É bom, tu vai gostar!”, dizia a moça. E que bom foi vê-lo se permitir ao cuidado, às vezes nem sabemos que precisamos disso.
Reconhecer que o cuidado mora nas atitudes simples é tarefa diária, frequente e constante. Ouvir um “não” e, gentilmente, convencer o “sim”, quando necessário, é ajuste de empatia. E, antes de tudo, apenas ouvir a si e ao outro. Não há nada mais atencioso na convivência do que a escuta, com presença e verdade. E na Residência Terapêutica a escuta vem costurada com muitas histórias.
O Brasil tem que ganhar
A Copa do Mundo se aproxima e Mostarda (codinome para preservar sua identidade) já se prepara para torcer pela seleção brasileira. Conversa vai, conversa vem, ele me diz que o Brasil precisa ganhar, “pelo menos 2 ou 4 gols por jogo.” Empolgado com futebol, afirma conhecer toda a seleção e gostar mais de um do que de outro jogador.
– Eu vou ganhar uma blusa do Brasil, amarela escura – partilha comigo.
– Você prefere amarela?
– É, amarela fica mais bonita – conclui e me convence.
Passando as cores pela tela, na pintura de Mostarda predominam as cores da bandeira nacional. Verde ao fundo, amarelo em formato de losango e um círculo azul ao meio. O quadro fica pronto e o desejo dele é de expor na sala, aproveitando os preparativos para os jogos.
Conversando com ele, dois ou três nomes de jogadores surgem. Confesso que não sabia de quem se tratava, mas Mostarda tinha um jeito comunicativo tão leve, que a conversa era boa, mesmo estando por fora do assunto. Divertido, sorridente e torcedor.
– Vamos torcer para o Brasil ganhar, ele tem que ganhar! – declarou.
– Vamos, sim. Os jogos vão ser bons. – concluo.
Biquíni de bolinha amarelinha
Com o nome de uma das aparições de Maria, mãe de Jesus, Dona A (codinome) me recebe com uma indagação.
– Qual a cor desse esmalte? – pergunta, ao observar meus pés brancos e unhas não tingidas.
– É meu pé mesmo, não uso esmalte – respondo, com gentileza, ao passo que recebo um riso sincero de volta.
Dona A usava um vestido de estampa atraente e de cores vibrantes. Acenava para mim com frequência, como quem me saúda pela primeira vez, só que repetidas vezes. Aceno de volta e percebo uma felicidade genuína ao mirar seus olhos, tão vivos e acolhedores.
Em determinado momento, ela me procura, acena com as duas mãos, enquanto canta uma música. Não a reconheço de primeira, mas, ao chegar no refrão, entro no embalo e danço ao som de sua cantoria.
“Ana Maria entrou na cabine
E foi vestir um biquíni legal
Mas era tão pequenino o biquinho*
Que Ana Maria ficou sensacional*
Era um biquíni de bolinha amarelinha tão pequenininho
Mal cabia na Ana Maria*”
A alegria genuína de Dona A ao cantar – ao seu jeito e memória – a letra da canção da década de 1980, do grupo carioca Blitz, me fez perceber que não há tempo certo para ser feliz. Não há tempo certo para decidir quando tornar a vida mais leve, nos pequenos atos de entrega, no sentir.
Assistindo-a, relembro: não há nada além do aqui e agora. Talvez por isso tenha me dado tão bem com ela, sua energia vibrava alto. Seu sorriso era bonito e seu olhar carregava sutileza e entrega ao momento terapêutico. Vi nela a verdade de ser, uma expressão viva do desejo de viver.
Texto e fotos: Rafaell Estebann